El Otro Camino
Marilá Dardot
Entrar na exposição de Marilá Dardot é sentir o movimento da arte como experiência viva.
Panos coloridos dependurados no ar, suspensos entre paredes e teto, como bandeiras que respiram, soltas, livres.
Em linho como base para cores industriais vibrantes, sobre as quais a artista desenha letra após letra, verso após verso, palavras que ressoam sonho, desejo e memória.
Por toda a sua coleção de frases, poemas e palavras: sonho, é o que vemos em comum como fio condutor em cada uma delas.
A exposição que é voz de sonhos e desejos, traz uma obra criada a partir de Guadalajara, na Penitenciária feminina de Almoloya de Juárez, mulheres privadas da liberdade bordaram versos do poeta cubano José Martí e seus próprios sonhos: ?Yo sueño con los ojos abiertos y de día??. Em um horizonte, com lua de prata e sol dourado, letras se entrelaçam sobre o azul profundo do linho, registrando um cotidiano de ausência, espera e desejo.
São sonhos modestos, humanos, que nos lembram da potência da expressão, mesmo quando a liberdade é limitada.
Marilá também captura o trabalho de mãos anônimas: funcionários de hotel, entregadores, montadores, trabalhadores da construção e da Bienal de São Paulo. Cada mão imprime na fotografia seus desejos, simples, concretos, mas com força para transformar a percepção do comum.
Um motorista de caminhão, uma pausa para férias coletivas, banheiros ou áreas de descanso em um hotel, desejos que, apesar da simplicidade, ecoam experiências universais de cuidado, conforto e reconhecimento.
E então, a artista convida a cidade a interagir: picolés em forma de foguete, distribuídos nas ruas e na galeria, cada um acompanhado por um guardanapo colorido com alertas sobre aquecimento global, prolongamento de incêndios florestais e insegurança alimentar. Entre cores saturadas e sabores, abacaxi, manga, morango, uva, o gesto se torna ritual: consumir com consciência, experienciar o doce enquanto se conecta à urgência do mundo.
Em outra camada do trabalho, Marilá percorre trajetos do transporte público em São Paulo para chegar à casa de Neide, sua diarista, em Francisco Morato.
Cada metro, cada bilhete, cada espera, registra desigualdades, rotina e persistência. Um relato que atravessa tempo e espaço, entre janelas de metrô, helicópteros e a narrativa viva da cidade, compondo a publicação Seu tempo nas suas mãos, que reúne memórias, fotografias, poemas e trajetos em uma experiência editorial quase surreal.
Me queimo em sonhos, tocando estrelas. Entre o real e o sonho, seremos nós a vertigem.
O trabalho de Marilá Dardot coloca-nos diante de contextos diferentes, permitindo acessar vozes que normalmente não ouvimos, e ao mesmo tempo desafia a nossa percepção de presença, participação e empatia.
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